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Relacionamentos

O que aprendi sobre não se abandonar dentro de um relacionamento

Amar não deve significar deixar de ser você. Reflita sobre limites, autoestima e os sinais de que está se abandonando dentro da relação.

Por Ana Paula Jardim, Psicóloga — CRP 09/4202 5 min de leitura

O que aprendi sobre não se abandonar dentro de um relacionamento

“Quanto de você precisou desaparecer para esse relacionamento continuar existindo?”

Durante muito tempo, eu acreditei que amar alguém significava fazer a relação dar certo. Ceder quando fosse necessário, compreender, ter paciência e, muitas vezes, colocar o relacionamento à frente das minhas próprias necessidades.

Com o tempo, tanto pelas minhas experiências pessoais quanto pelo que observo em minha prática como psicóloga, compreendi algo importante: existe uma diferença entre construir uma relação e se abandonar para mantê-la.

E nem sempre percebemos quando essa linha é ultrapassada.

Quando amar começa a significar abrir mão de si

O abandono de si geralmente não acontece de uma vez. Ele começa nas pequenas coisas.

Você deixa de falar sobre algo que incomoda para evitar uma discussão. Aceita comportamentos que antes dizia que não aceitaria. Começa a pensar duas vezes antes de fazer alguma coisa porque sabe que o outro não vai gostar.

Pouco a pouco, suas escolhas passam a ser feitas pensando mais na reação do outro do que naquilo que você realmente deseja.

Isso pode parecer amor. Pode parecer cuidado. Pode até parecer maturidade.

Mas, quando somente uma pessoa precisa ceder constantemente para que o relacionamento funcione, alguma coisa precisa ser observada com mais atenção.

O que percebo na prática clínica

Ao longo dos anos atendendo pessoas e casais, percebo que muitas pessoas chegam à terapia dizendo que querem “salvar o relacionamento”.

Mas, à medida que começamos a conversar, surge uma questão anterior:

Onde essa pessoa ficou dentro dessa relação?

Às vezes, ela já não sabe mais do que gosta. Deixou amizades de lado, abandonou projetos, perdeu a confiança nas próprias decisões ou vive tentando descobrir o que precisa fazer para que o parceiro fique bem.

Diante disso, uma pergunta costuma provocar bastante reflexão:

Quanto de você precisou desaparecer para esse relacionamento continuar existindo?

Amar não significa viver sem conflitos

Durante muito tempo, construiu-se a ideia de que um relacionamento saudável é aquele em que duas pessoas combinam em tudo.

Mas não é assim.

Relacionamentos saudáveis também têm divergências, frustrações, dias difíceis e conflitos. A diferença está na maneira como essas situações são vividas.

É possível discordar sem humilhar.

É possível estabelecer limites sem ameaçar abandonar.

É possível dizer “isso me machuca” sem precisar sentir culpa por estar incomodando.

E, principalmente, é possível amar alguém e continuar sendo você.

Uma relação saudável não deveria exigir que uma pessoa diminuísse para que a outra permanecesse.

Quando a concessão deixa de ser uma escolha

Relacionar-se envolve concessões. Em alguns momentos, vamos abrir mão de alguma coisa pelo outro — e o outro também deverá fazer isso por nós.

O problema começa quando a concessão deixa de ser uma escolha e passa a ser uma forma de sobrevivência emocional:

“Se eu disser o que penso, ele vai embora.”

“Se eu colocar um limite, ela não vai mais me amar.”

“Talvez eu esteja exigindo demais.”

“É melhor ficar quieta para não piorar.”

Quando pensamentos assim se tornam frequentes, talvez seja importante olhar não apenas para o relacionamento, mas também para a relação que você está construindo consigo.

Você ainda se reconhece nessa relação?

Algumas perguntas podem ajudar nessa reflexão:

  • Você consegue dizer “não” sem sentir medo de perder o outro?
  • Ainda mantém seus interesses, amizades e projetos?
  • Consegue expressar o que sente?
  • Suas necessidades também têm espaço?
  • Você se sente respeitada mesmo quando vocês discordam?

E uma pergunta ainda mais importante:

Você gosta da pessoa que se tornou dentro desse relacionamento?

Não existem respostas perfeitas. Mas existem respostas que podem nos mostrar aquilo que, há algum tempo, estamos evitando enxergar.

Amar alguém sem deixar de amar a si

Uma das coisas mais importantes que aprendi é que construir uma relação saudável não significa escolher entre “eu” e “nós”.

Os dois precisam existir.

Existe você.

Existe o outro.

E existe a relação que vocês constroem juntos.

Quando um desses espaços desaparece, o relacionamento começa a se desequilibrar.

Talvez amadurecer emocionalmente seja justamente aprender isso: posso amar alguém profundamente sem precisar me abandonar para ser amada.

Quando percebemos que estamos nos perdendo dentro de uma relação, a terapia pode ser um espaço para compreender como chegamos até ali, reconstruir limites e, principalmente, voltar a ouvir a própria voz.

Se você está em sofrimento intenso agora, ligue 188 (CVV) — atendimento gratuito, 24 horas.

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